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Não era tecnologia, era tudo droga

Publicado em 05/12/2025

Não era tecnologia, era tudo droga

“A fim de compreender como as novas relações de corpo-poder, prazer-conhecimento e pharmakon-subjetividades foram estabelecidas no Ocidente, devemos agora fazer um desvio indispensável às relações entre o capitalismo e a destruição das nossas tradições enteogênicas.— Testo Junkie, Sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica, Paul Preciado

Enquanto caminho pelos fluxos da cidade cyberpunk, fico sempre admirada como todos se tornaram viciados em tecnologia. Tech Junkies.


Que vivemos em telas já sabemos.


Mas não só as telas nos viciam na tecnologia.
Preciado descrevia as cidades como “[…] máquinas socioarquitetônicas capazes de produzir identidades(Um apartamento em Urano, Preciado). Viver na cidade é o vício nessa máquina.


Nossas identidades estão simbioticamente ligadas a essa máquina, essa tecnologia chamada cidade.
O meio urbano é o meio dos Tech Junkies, ou melhor, dos ciborgues.


Nos envolvemos nas dinâmicas das tecnologias de controle e entropia populacional. Fluxos de transporte, câmeras de vigilância, semáforos coordenando o movimento do deslocamento automotivo, subterrâneos infestados de telas com propaganda do cybercapital.
Tudo conectado pelos cabos de rede e eletricidade extraindo a energia da biosfera e transformando-a na tecnosfera.


Parece difícil para nós, que ainda nos chamamos de humanos, vermos dessa forma quando naturalizamos tão facilmente essa máquina de gente chamada cidade.


Também, a destruição das culturas enteogênicas — substâncias psicoativas capazes de induzir outros estados de consciência, comuns em rituais xamânicos — pode nos fazer pensar como somos seres racionais em que a sobriedade não resultaria na produção de um mundo evocado por um transe ou possessão, mas sim guiado pela racionalidade e técnica em nome de um progresso para todos.


Ingênuo.


Basta caminhar nos fluxos de São Paulo para ver todos em transe ou possessão na sobriedade racional dos circuitos do Cistema nos intoxicando rumo ao seu estado de consciência.


Talvez, a diferenciação entre tecnologia e droga não exista para além do seu apelo moral em que as drogas são tecnologias abjetas capazes de evocar outras formas de experienciar e criar sentido, outros transes e formas de perceber e produzir a realidade.
Enquanto o que entendemos por tecnologia — também em suas relações simbióticas com o corpo — são as drogas higienizadas evocando a possessão mística da razão produzindo a realidade desejada pela pseudosobriedade.


Desejada por quem? Quem nos quer presos no transe dos algoritmos capitalistas das redes sociais, timelines, planilhas, tabelas e inteligência artificial das big techs? O que nos quer negligentes às dores da miséria na cidade enquanto seguimos nossos fluxos urbanos? Quando vamos revidar contra isso?


Nossos corpos seguem nessa possessão da máquina de gente e do ciberespaço capitalista, presos nas possessões das telas e dos circuitos do Cistema.


Se as drogas são o que nos possibilita ritualizar e produzir realidades a partir das suas relações, então, talvez, desde o início não existiu tecnologia, era tudo droga.


“Se a figura da sociedade da disciplina era do trabalhador presidiário, a figura da sociedade do controle é a do endividado viciado. O capital do ciberespaço opera viciando seus usuários.— Realismo Capitalista, Mark Fisher