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misantropi4

Publicado em 04/07/2026

misantropi4
“Os hackers criam a possibilidade de coisas novas entrarem no mundo. Nem sempre grandes coisas, ou mesmo coisas boas, mas coisas novas. Na arte, na ciência, na filosofia e na cultura, em qualquer produção de conhecimento na qual dados podem ser coletados, de onde informações possam ser extraídas e, nessa informação, novas possibilidades para o mundo possam ser produzidas, existem pessoas hackeando o novo a partir do velho. Enquanto criamos esses novos mundos, não os possuímos. Aquilo que criamos está hipotecado a outros, e aos interesses de outros, a Estados e corporações que monopolizam os meios para criar mundos que descobrimos sozinhos. Não possuímos o que produzimos – somos possuídos pelo que produzimos.”
- Um manifesto hacker, McKenzie Wark

Curioso esse sentimento: misantropi4.
Abjeção ou rejeição pela humanidade. É sempre de tremenda heresia e blasfêmia voltar-se contra sua própria natureza. E não é esse o movimento de todas as coisas?


Neste dispositivo ‘Humano’ se deposita tantas esperanças: um lugar comum compartilhado por natureza, uma inocência não corrompida, um reconhecimento mútuo entre todos.


E por que nos apegamos a essa esperança humana ao invés de sua rejeição?
Por que não romper com essa esperança, encarando de frente o Humano e sua suposta ideia de natureza comum a todos nós?


Odeio o lugar comum compartilhado de natureza. Tudo que já me foi dito ser natural foi para aceitar inaceitáveis, para conformar-me como impotência perante violências. Odeio a castração humana.


Odeio a inocência não corrompida. Tudo que se pretende inocente é abjeto à contaminação, rejeita a transformação invadindo nossas fronteiras estabelecidas para proteger uma realidade inerte, repetida e ordenada.


Aprecio os sintomas de desejos-vírus crescendo de dentro de fronteiras in-fectadas, produzindo a-fecções, transformando, degenerando, corrompendo a ideia de uma pureza humana fixa que não se sensibiliza com sua própria capacidade de destruição e ridicularização do diferente de si.


E quem deseja pureza? Queremos ser puros de quê? Odeio a pureza humana.


Odeio o reconhecimento mútuo entre todos. Tudo que se diz sobre reconhecimento é apenas ser codificado para ser entendido pelo outro, ser expresso na linguagem de um outro, é me inserir nos símbolos desse humano para que ele possa me ler, ou me adestrar para ler os outros como ele. Odeio a necessidade de nos reconhecermos como iguais para coexistir.


Por que não se vê potência na diferenciação? Que medo é esse do estrangeiro, do alien, do monstro, do ciborgue, do não-humano? Por que não conseguimos coexistir pela diferença?


Trágico é o fim de quem sai dos códigos inteligíveis da humanidade. O não reconhecimento (ininteligibilidade) pela humanidade pode te levar à marginalização, à repulsa e, por fim, à morte. A ‘humanidade’ é cruel: expulsa suas crias ao não se adestrarem à sua suposta natureza.


Odeio os códigos Humanos. Ou melhor, tecnohumanos.


Se há algo que aprendi com minha misantropi4 é amar a transgressão da naturalização do inaceitável, saciar-me na contaminação pela diferença e me produzir para fora dos limites dos códigos cis-hétero-binários produtores do sujeito ‘Humanidade’, inimigo dos reconhecidos como não-humanos.


Contagiosamente pelas interfaces dos portais do ciberespaço, hackeados de dentro dos sistemas de segurança humanos, enunciou-se um futuro: contaminado, transgredido e ininteligível vindo do não-humano - misantropi4.


Por que você ainda se apega a uma higienização humana?


Monstrifique-se.