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Reflexões sobre uma conversa cisgênera

Publicado em 26/02/2026

Reflexões sobre uma conversa cisgênera
Esse texto é um trecho do diário trans da Barbs, que pode ser lido clicando aqui

Na escola, hoje, tive que ouvir aquelas conversas sobre “ai, quero ter x filhos homens e x filhas mulheres”, e uma das garotas presentes começou a puxar a ideia de que, atualmente, a causa queer está induzindo a ideologia de gênero nas crianças.


Porém, a cisgeneridade já é uma indução, disfarçada de neutralidade. A imposição do gênero a partir da criação dos corpos recém-formados é perfeitamente aceitável para todas as idades, então por que o questionar do gênero não é?


E aí apelam também ao senso comum de “não é idade de fazer escolhas”, como se a transgeneridade significasse necessariamente uma rigidez permanente, muito associada ao que a sociedade interpreta de maneira reduzida ao processo de transição e à própria maneira de conceber a ideia de gênero.


A cisheteronorma e sua noção de gênero rígida e permanente é uma forma de controle dos corpos que determina um limite de até onde a identidade pode ir.


E quando dizemos sobre explorar, desconstruir, transicionar, é sobre criar, ao longo da nossa existência, uma nova forma de existir que foge dos padrões inseridos sobre nossos corpos.


E aí a garota que puxou o assunto disse que faria de tudo para que a filha nem pensasse criticamente sobre quem ela é.


E aqui não estou falando de mudar nome de crianças, injetar hormônios ou trocar seus genitais, estamos falando sobre questionamento e descoberta sendo totalmente inibidos, censurados e manipulados por uma mentalidade conservadora.


Ela falando que seguiria totalmente a norma e todo o clichê associado ao feminino, e que só deixaria de fazer quando a filha fosse mais crescida, o que eu acho uma total idiotice.


É preciso que, em certo limite, as crianças sejam livres para experimentar de forma segura, não forçadas a seguir um padrão pra depois, de adultas, pensarem sobre quem elas querem ser.


O processo de transição é um processo de construção de um eu e não depende de alcançar uma idade específica; ele pode florescer a qualquer momento, basta aos adultos garantir que esse processo seja o melhor possível.


Mas os pais, em sua maioria, querem controle, querem que seus filhos sejam o que foram projetados pra ser. As relações familiares também se constituem por expectativas de gênero que os pais reproduzem até antes de serem pais, como o caso das pessoas que pensam tanto em qual gênero querem que suas crianças tenham.


Mas, prosseguindo na discussão, uma outra colega começou a dizer que o gênero tava ligado ao órgão, mas se é apenas um nome pra alguém que nasceu com uma genitália, por que fazem conversas extensas sobre as genitálias de seus bebês? Por que isso é uma questão a ser posta em xeque?


Porque, se a lógica é pelo genital, eu posso ouvir suas conversas como: “quero ter três crianças com pau e duas com buceta”. Soa estranho, não soa? Qual o interesse dos héteros nas genitálias das crianças?1


E continuou querendo falar sobre biologia, reforçando que eu sou homem “biologicamente”.


E essa pessoa é tão ignorante que veio falar sobre biologia sem falar da existência de uma variabilidade cromossomo-sexual muito maior que 2, e ela disse que, em primeiro lugar, era algo raro e que ninguém conseguiria viver sendo interssexo. É uma total ignorante.


E, sobre serem casos muito raros, temos que pensar que é impossível ter muitos casos de pessoas interssexo quando essas pessoas, assim que nascem, são majoritariamente submetidas a cirurgias de redesignação, e sobre essa cirurgia, que sim acontece em crianças, nenhum desses conservadores vê um problema moral.


Ou seja, quando o órgão não atende às expectativas sociais, os pais e os médicos se sentem livres para fazerem operações forçadas em crianças, e o problema é nós defendermos que as crianças não têm que obedecer a normas impostas ao nascer?


Somos atacadas por imensos pânicos morais por quem de fato comete as atrocidades que acusa; a sociedade conservadora é totalmente hipócrita.


A garota queria incessantemente prosseguir com a lógica simplista pro seu argumento fazer sentido, e eu já cortei pelo postulado, e começaram as risadinhas, os olhares como se eu fosse uma negacionista que diz que vacinas causam autismo.


No final, eu queria apontar o quanto a naturalidade e a suposta neutralidade do gênero cis é repleta de ideologia e tão impositiva quanto esse inimigo abstrato que elas dizem combater.


Meu pai diz que, desde que vieram com o termo “mimimi”, qualquer aprofundamento em questões estruturais virou alvo de piada. Dizem pra mim: “a vida não precisa ser tão elaborada, as coisas são simples, it’s not that deep”, mas essa simplicidade é senso comum instrumentalizado para legitimar uma ordem política.


Mas achar que playboyzinha que sempre viaja pros Estados Unidos e tem tudo do melhor vai querer pensar questões sociais estruturalizadas é muita inocência minha.


Me sinto totalmente deslocada naquele ambiente, sendo alguém de realidade diferente e com uma visão de mundo quase antagônica.



1 A fala presente apresenta uma inversão irônica aos discursos de pânico moral que induzem a imagem de pessoas trans como obcecadas por crianças de maneira doentia, associando de maneira implícita pessoas trans à pedofilia.