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(trans)fobia social: e as crianças trans?

Publicado em 28/10/2026

(trans)fobia social: e as crianças trans?
Esse texto é uma resposta ao vídeo do felca sobre fobia social.
“A criança é um artefato biopolítico que garante a normalização do adulto. A polícia de gênero vigia o berço dos seres que estão por nascer, para transformá-los em crianças heterossexuais. A norma ronda os corpos meigos. Se você não é heterossexual, é a morte o que te espera” — Quem defende a criança queer?, Um apartamento em Urano, Paul B. Preciado.

A dor de ressentir o passado inúmeras vezes em nosso corpo-e-mente, revivendo momentos ou sentindo que desperdiçamos a vida, é uma dor muito real. Sentimos isso na pele, no peito. Nossos corpos são afetados por ela.


O isolamento como fuga da necessidade de enfrentar socializações que nos assustam - “O que vão pensar de mim?”, “Será que estão me julgando?” - e tantas outras formas de nos tornarmos nossos próprios policiais é cansativo e doloroso.


Toda pessoa esquisita - ou seja, que escapa às normas sociais - já esteve aí. Reconheço esses sentimentos e o quanto são tão vivos que parecem roubar de nós a nossa potência de vida.


Falar de bullying e exclusão desde a infância é, infelizmente, um tema comum para quem é uma pessoa não normativa (LGBTIAP+, queer e/ou trans), em um mundo que ainda julga e violenta tanto a diferença.


Por isso, gostaria de perguntar: e as crianças trans e queer?


Diante dos ataques da extrema-direita ao redor do mundo, de suas agendas reacionárias antitrans - mobilizadas como estratégia de promoção política e de desresponsabilização dos poderosos pela crise -, questiono: como será o futuro das crianças trans e queer?


É possível falar sobre bullying, exclusão e ressentimento sem falar de sua política? Sem falar de normatividade?


Você, Felca, abre seu vídeo descrevendo uma de suas primeiras lembranças de dor causada pelo bullying: a menina de quem você gostava o tratava como abjeto. Temos algo em comum: corpos vistos como abjetos.


As dores que você sentiu no passado e ainda sente no presente passam pelos efeitos de normas sociais impostas às crianças desde cedo: a heterossexualidade compulsória, a cisgeneridade presumida como destino, o binarismo de gênero e padronizações que definem o corpo “perfeito”, e consequentemente, também o corpo desejável.


Como manter silêncio sobre as agendas políticas que conservam e reforçam essas normas enquanto falamos sobre bullying?


Como ensinar as crianças a pararem de rejeitar a abjeção? Não seria, primeiramente, preciso que os adultos parassem de odiá-la? Que deixassem de tratar como abjetos corpos que escapam às normas de gênero?


Tudo isso é tão político quanto o bullying sofrido na infância. O ódio à diferença alimenta tanto a violência escolar quanto a máquina de destruição fascista.


Porém, muitas das pessoas assistindo ao seu vídeo irão se comover com sua história mas se calarão sobre nossas crianças trans e queers. Tampouco se importarão com o que acontece conosco na vida adulta.


O que fazer, então, diante da (trans)fobia social? Como transformar uma sociedade violenta contra a diferença que lhe é abjeta?


Por sorte, há uma alegria própria do desapego às normas, da potência de se recriar fora de tantas regras produzidas por uma sociedade avessa à potência de ir além do que ela exige de você e da sua sujeição. Algo que só dissidentes experimentam.


Monstrifique-se.

“Minha vida fora do regime da diferença sexual é mais bela do que qualquer coisa que as senhoras e os senhores poderiam me prometer como recompensa por aderir à norma.”
— Eu sou o monstro que vos fala, Paul B. Preciado